Nossa Senhora do Rosário do Barreiro

Introdução

Embora o orago da primitiva freguesia do Barreiro, que passou a concelho em 1521, seja a Santa Cruz, tem sido a Virgem do Rosário que o povo local tem considerado tradicionalmente como sua protectora, talvez desde há vários séculos.

Neste trabalho se demonstra que o culto de Nossa Senhora do Rosário é muito antigo no Barreiro, seguramente anterior a 1524, dado que nesta data já existia uma sua imagem na Igreja Matriz, segundo a visitação desse ano da Ordem de Santiago.

Em 1606 foi criada uma primeira Confraria do Rosário, provavelmente de Homens Brancos e Pretos, nessa Igreja Matriz.

Talvez se trate da legalização de uma confraria que já devia existir anteriormente, de maneira informal. Há notícia segura de que havia festividades do Rosário nesta localidade, poucos anos depois.

Em 1736 instalou-se na localidade, na Capela de S. Roque, uma nova imagem de Nossa Senhora do Rosário, por acordo entre a Irmandade de S. Pedro dos Pescadores e a mais antiga Confraria do Rosário de Lisboa, com sede no Convento de S. Domingos, e que parece ter sido a mais antiga destas Irmandades em todo o mundo.

A esta ermida passou a chamar-se Capela do Rosário, para ela se transferindo o tradicional Círio que aquela confraria realizava anualmente ao Rosairinho da Moita.

Entretanto continuava activa a outra Irmandade do Rosário da Igreja Matriz de Santa Cruz, existindo livros dela no Cartório da Misericórdia do Barreiro, pelo menos desde 1734, mas havendo indícios de que teriam existido outros documentos dela, talvez desde 1627. Esta confraria, portanto a mais antiga, tornar-se-ia pouco activa durante o século XIX, acabando por ser extinta em 1866.

A confraria da Capela do Rosário, portanto a segunda confraria a ser criada, passou a chamar-se, em 1781, Real Irmandade dos Escravos de Nossa Senhora do Rosário que se venera na sua Igreja do Barreiro, com sede na Igreja de S. Domingos de Lisboa.

Após muito mais de um século de diligências, em 1957 a sua sede acabou por passar para o Barreiro, onde permanece desde então.

A Real Irmandade ainda hoje se mantém activa, continuando a possuir a Igreja de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro, que se mantém como um expoente do património histórico, religioso e cultural do Barreiro.

As descobertas recentes

José Augusto Pimenta, Armando Silva Pais e o Padre Francisco Santos Costa, que publicaram valiosos detalhes sobre a segunda Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, sediada no actual Santuário, e aqui conhecida desde 1736, não mostram indícios, nas suas obras, de se terem apercebido da verdadeira antiguidade deste culto do Barreiro.

Ana Leal, ao publicar o texto da visitação de 1524 da Igreja Matriz de Santa Cruz, levantou uma ponta do véu.

Maria Manuela Saraiva Rodrigues, ao estudar a vida da Irmandade do Rosário da Igreja Matriz, veio publicitar a existência desta confraria, afinal mais antiga que a do Santuário.

Também Rosalina Carmona publicou no Jornal do Barreiro outros materiais sobre a vida religiosa do concelho, recolhidos no Cartório da Ordem de Santiago, que contribuem para esta investigação.

Estudos recentes sobre as confrarias do Rosário

A investigação histórica e antropológica, realizada nos últimos anos em Portugal, trouxe à luz inúmeros pormenores sobre as confrarias do Rosário, bem como sobre a vida social e religiosa dos escravos a que estas Irmandades sempre estiveram ligadas.

Estes estudos, que podem ser cruzados com detalhes de âmbito regional, têm-se revelado muito produtivos para a compreensão profunda das comunidades envolvidas. Daí a relevância que têm adquirido em anos recentes, e o interesse com que têm sido recebidos.

Será talvez o momento para fazer o ponto da situação sobre o que se sabe acerca da tradição de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro, juntando algumas notas sobre a evolução do culto do Rosário no mundo e em Portugal, que se afiguram indispensáveis para uma compreensão mais completa do assunto.

Origens do culto do Rosário

E muito antiga a utilização de rosários de contas, em várias religiões, como ajuda aos fieis na sua orações, sendo muito utilizados por católicos, por budistas e por maometanos.

O Rosário compõe-se actualmente de 15 padre-nossos e 150 ave-marias, que os devotos vão rezando enquanto desfiam as contas com os dedos. Está muito difundido o uso de terços, mais portáteis, que representam a terça parte de um rosário, e que talvez sejam ainda mais antigos no nosso país.

Com efeito, nos célebres Painéis atribuídos a Nuno Gonçalves, que se podem ver no Museu de Arte Antiga de Lisboa, e cuja execução quase todos os peritos situam por volta de 1470, três das personagens tem nas mãos fieiras de contas, que parecem terços, demonstrando que já na época deviam ser vulgares.

O actual culto do Rosário teria tido inicio na Alemanha, por devoção de um frade dominicano chamado Alano da Rocha, que faleceu na Holanda em 1475. Este culto teria sido assumido pelos dominicanos, que, na legenda dourada do seu fundador, o espanhol S. Domingos de Gusmão, viriam a incluir a revelação do Rosário por parte de Nossa Senhora, durante uma sua aparição aquele santo.

Os cronistas contemporâneos do taumaturgo, e mesmo historiadores dominicanos actuais são omissos sobre essa revelação do Rosário. Também não se encontra essa referência no processo de canonização daquele Santo. Tudo isso parece sugerir um aditamento tardio, que todavia ganhou força de facto histórico.

De qualquer modo, e sobretudo por acção dos Dominicanos, o culto do Rosário difundiu-se bastante depressa pela Europa e depois pelas novas terras descobertas por portugueses e espanhóis.

À Ordem de S. Domingos se ficou a dever também toda a liturgia da contemplação dos Mistérios do Rosário, bem como o consequente enquadramento dos atributos marianos, hoje conhecido e praticado em todo mundo católico, e que neste trabalho nos dispensaremos de tratar.

O culto do Rosário e o problema da  escravatura

A devoção do Rosário ficou ligada, desde muito cedo, à evangelização dos escravos negros. As razões imediatas desta conexão ainda não são ainda totalmente claras.

Foi sugerido que os cativos teriam identificado os rosários de contas com os colares que tão frequentemente usam os povos africanos, num sincretismo de raiz elementar, tão vulgar em fenómenos religiosos muito difundidos.

José Ramos Tinhorão, ao estudar o assunto, tenta aprofundar a questão. Começa por aceitar como válida uma tese do antropólogo americano Melville J. Herskowitz, que em 1937 sugeriu que os negros teriam assimilado as contas dos rosários, não só com os colares, mas também com as nozes ou frutos de determinada palmeira, vulgar na costa ocidental africana, usados em rituais de adivinhação do futuro e consulta do destino, estabelecendo assim a ligação com o grande orixá Ifá dos negros, muito difundido no panteão da costa ocidental africana.

Ainda hoje se encontram no Brasil os rosários ao pescoço de sacerdotes dos cultos negro-africanos. Esse facto está de acordo com a origem étnica dos negros brasileiros, a grande maioria deles descendentes de escravos congos (da região do Congo) e minas (do Golfo da Guiné e Costa da Mina), continuando estas crenças bem enraizadas nessas zonas da costa ocidental africana.

Tais tradições são também muito conhecidas no Brasil, e têm sido transmitidas ao longo dos séculos pela tradição oral negra, tão rica e persistente.

Essa identificação teria sido ainda facilitada pelo facto de certos antigos terços e rosários terem contas esculpidas com o formato de uma rosa, conhecido atributo mariano que aparece vulgarmente colocado nas mãos de imagens da Virgem até ao sec. XVI. Aliás, dessas rosas, rosarum em latim, deriva o próprio nome do rosário.

Essas rosas esculpidas mais assemelhariam as contas dos rosários com os frutos dessas palmeiras, que não temos elementos para identificar melhor. De qualquer modo, como diria Marcel Mauss, tenderiam a aglutinar-se rituais mágicos com rituais religiosos, partindo, evidentemente, da crença de que ambos teriam capacidade de intervenção e de modificação do real.

A primeira Confraria do Rosário

As confrarias são associações de leigos, ligados à Igreja Católica por laços muito estreitos, e que têm sido criadas desde longa data com a finalidade de desenvolver certos cultos particulares, mas incluindo nos seus interesses acções de catequese, e também a realização de obras pias.

Em Portugal sabe-se da existência de uma Confraria de Nossa Senhora do Rosário, formada no Convento de S. Domingos da Cidade de Lisboa, entre 1460 e 1480.

Manuel de Faria e Sousa, a quem é preciso descontar certos exageros, afirma na Europa Portuguesa que ..”.la primera Cofradia, o Hermandad de Nuestra Señora del Rosario fue en Portuga”l. Neste caso não parece deixar de ter razão, pois não temos encontrado menção de confrarias do Rosário mais antigas noutros países.

Esta foi portanto a mais antiga Confraria do Rosário em Portugal. Foi criada pelo estímulo dos frades de S. Domingos, na Igreja do seu grande Mosteiro de Lisboa, situada ainda no mesmo local. Parecem ter sido pessoas influentes na Corte que estiveram na sua origem, pois este templo era muito frequentado pela gente ligada ao poder real.

Tinha uma confraria “mui ü~~ida”, que tinha resolvido homenagear a Virgem pela sua intercessão para cessar a peste desse ano, que o governo da cidade, os nobres e o povo tinham pedido muito a Nossa Senhora do Rosário.

Há informação de que por volta de 1490 já a Capela de Nossa Senhora do Rosário, em S. Domingos, era sumptuosa, riquíssima de prata e de alfaias. A imagem da Virgem era também de prata.

Inicialmente parece ter aglutinado homens brancos, e mais tarde homens pretos, sob o patrocínio benévolo dos frades dominicanos.

São conhecidos documentos respeitantes à relação dos escravos com esta Irmandade desde 1494. Nesta data, D. João II louva essa confraria dos Negros e proíbe a Câmara de Lisboa que a controle, mantendo-a debaixo da protecção régia directa. Próximo da sua morte, deixou-lhe legados de 500 reis de ouro sobre cada caravela que chegava da Mina, de onde vinham também numerosos cativos.

Todavia a história é mais complexa e pode deduzir-se de documentos muito posteriores.

Os negros de Lisboa, aderindo com ou sem reservas ao culto do Rosário, teriam pedido para montar uma pequena mesa à porta da Igreja, para ajudar à catequese dos negros.

Mais tarde a mesa teria sido transferida para o interior do templo e aumentado de tamanho. Aí teriam os negros ampliado a sua acção e iniciado informalmente uma confraria sua, ou pelo menos um cofre privativo, secreto ou não, dos negros escravos.

Posteriormente os negros foram acusados de fazer aproveitamento abusivo do local, funcionando a mesa como ponto de contacto da comunidade, e como local de recepção de dinheiro, alegadamente roubado aos donos dos cativos, e que estes iriam depositando num cofre, com vista à sua alforria futura.

Estas acusações teriam despertado a desconfiança das autoridades municipais e levado a medidas repressivas, essas que D. João teria contrariado em 1494.

Esta atitude do Rei teria imposto respeito, e a confraria particular dos pretos, ainda que de modo informal, teria continuado a existir. Mais tarde os negros viriam mesmo a solicitar lugares na Mesa, provavelmente tentando defender o seu pecúlio, o que teria levado a novo conflito.

Os escravos não teriam desistido dos seus intentos, e chegaram a processar varias vezes a Irmandade dos Homens Brancos nos tribunais civis, aproveitando o facto de os cativos estarem sujeitos apenas à justiça secular, o que obrigava a Mesa da Irmandade ao pagamento de largas custas nos processos, de que não estava isenta nesse foro, mas apenas no foro eclesiástico, a que os negros, habilidosamente, não recorriam.

O foro secular, dependente do poder real, deu várias vezes razão aos cativos, não apenas por razões de justiça elementar, mas também pelo bom trabalho aparente da confraria na aculturação e catequese dos escravos.

A aparente protecção do baptismo

Os cativos só a partir de 1512 passaram a ser obrigatoriamente baptizados, o que apesar de tudo lhes conferiu alguma protecção em termos sociais.

O baptismo dava-lhes entrada no grémio da cristandade, e permitia-lhes a possibilidade canónica de erigir confrarias, tomar parte legal em festas religiosas e ter funerais decentes.

Mais tarde os negros, que também foram indiciados por tentarem fazer duas confrarias, chegariam à conclusão de que seria melhor ter uma instituição exclusivamente sua, para contornar os problemas, avançando para a apresentação formal de um Compromisso, com vista a legalizar integralmente o processo.

É de peculiar importância o manuscrito do Compromisso da Confraria do Rosário dos Pretos, que data de 1568. Esse Compromisso, que revela em detalhe a vida interna da irmandade, na altura com 39 irmãos, foi longamente analisado por Saunders, e para esta obra se remete o leitor interessado em mais detalhes.

A alforria

Contudo, em termos muito gerais, o que se parece ter passado nesta Confraria tenderá a reproduzir-se no futuro – grupos de brancos abastados tomam conta da Irmandade e dos seus rendimentos e pretendem utilizá-los maioritariamente nas festas em honra da Padroeira e na manutenção do culto.

Em paralelo, os negros funcionam como uma espécie de sócios de segunda ou terceira categoria, que a Mesa da Irmandade pretende beneficiar sobretudo no plano espiritual, salvando as suas almas, e prestando um mínimo de atenção à alforria de escravos, que por estatuto lhe era cometida, tendo por obrigação libertar pelo menos um escravo anualmente.

Esta alforria nem sempre foi correctamente aplicada, sabendo-se de casos de senhores que libertavam escravos já muito velhos ou incapazes de angariarem a sua subsistência, abandonando-os na prática à sua invalidez. Não está averiguado se as irmandades foram coniventes em processos deste género, mas a sua ocorrência não parece ter sido invulgar.

Temendo situações destas, os negros, pelo menos os mais avisados, desde cedo tentavam reunir fundos para a sua própria alforria, mas deparavam com o impedimento legal de possuírem qualquer dinheiro ou pecúlio próprio, que à partida se presumia terem sido subtraído aos seus donos, ou amealhados à sua revelia. Legalmente, os escravos que fossem encontrados com dinheiro aforrado estavam mesmo sujeitos a severas sanções físicas

Assim, se conseguiam algum quantia, tentavam depositá-la em seu próprio nome no cofre da Irmandade, que teria obrigação de o salvaguardar, como muitas vezes parece ter acontecido.

Mas as coisas pioravam quando os mesários eram menos honestos, ou quando entendiam que o dinheiro nos cofres pertencia à Confraria e devia ser gerido pela Mesa, sobretudo para efeitos de culto.

Parece ter sido este tipo de situação que desencadeou a maioria dos conflitos entre as Mesas e os escravos, apesar destes, ao longo dos anos, terem conseguido introduzir alguns pretos forros nas respectivas gerências, mas com capacidade de intervenção muito limitada.

Irmandades de Homens Brancos e Irmandades de Homens Pretos

Por meados do sec. XVI o movimento de criação de Irmandades do Rosário dos Homens Pretos tornou-se um facto bem documentado, e que parece ter-se estendido depois a todo o país, e mais tarde aos territórios controlados pelos portugueses, sobretudo no Brasil, onde proliferaram em quantidade a partir do sec. XVIII.

Em paralelo desenvolveram-se igualmente Irmandades do Rosário dos Homens Brancos, que no fundo se destinavam a gerir patrimónios tradicionais das antigas Confrarias mistas, mas assumindo em regra a realização dos festejos, em que os escravos sempre compareciam em massa.

Deste movimento global acabou por resultar não só uma extensa proliferação de Irmandades, mas sobretudo a multiplicação de altares de Nossa Senhora do Rosário, que por toda a parte do país ainda hoje se podem encontrar, convivendo por vezes lado a lado com imagens recentes de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, num curioso sincretismo devocional sem paralelo noutros países, e que quase parece esquecer a raiz comum de ambos os cultos.

Uma Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, muito antiga, é a de Évora, já existente em 1518. Supomos que a ela esteja ligada a extraordinária. imagem da mesma Senhora que se encontra no Museu da Catedral de Évora, que só por si vale a visita.

Nesta, mesma cidade se encontra a Capela de Nossa Senhora do Rosário, na Igreja de S. João Evangelista ou dos Loios, ao lado do Templo de Diana. Este templo é o panteão da Casa Cadaval e pode ser visitado.

Essa Capela foi patrimonial de Rui de Sousa, senhor de Sagres e de Beringel, que pertenceu à Casa do Infante D. Henrique, e foi um dos negociadores do Tratado de Tordesilhas. Faleceu a 23 de Maio de 1497, em Toledo, onde acompanhava D. Manuel I na sua viagem a Espanha.

A sepultura de Rui de Sousa, bem como de sua mulher D. Branca de Vilhena, sobrinha do fundador do mosteiro, estão no chão dessa capela, sendo ambas dotadas de raras e belas placas funerárias em bronze.

No altar existe um retábulo em que quatro das pinturas são tábuas alusivas à revelação do Rosário a S. Domingos, que Túlio Espanca data de cerca de 1620.

Não conhecemos o testamento de Rui de Sousa, mas se a dedicação da capela a Nossa Senhora do Rosário data da sua morte, ela será das mais antigas em Portugal.

Da Irmandade do Rosário de Elvas, fundada pouco depois da de Évora, existem vários documentos no Cartório da Igreja de S. Domingos de Lisboa, parecendo ter havido especial ligação entre ambas as Instituições.

Explorando outras vias, é de assinalar que a primeira Igreja portuguesa a ser fundada no Oriente foi a de Nossa Senhora do Rosário da Velha Goa, em 1514, na sequência de um voto do grande Afonso de Albuquerque, que tinha uma importante quinta no Lavradio, mais tarde integrada. no célebre Morgadio da Casa dos Bicos de Lisboa, juntamente com a Quinta da Bacalhoa em Azeitão. Essa parcela, que em 1426 se chamava já a Quinta do Barreiro, foi muito mais tardiamente a Quinta do Meloal e conservou-se na família Albuquerque até finais do século passado.

Para lá destas fundações precoces de instituições dedicadas ao culto do Rosário, continuou mais tarde a firmar-se a tendência para a evolução em confrarias do Rosário separadas, como já notámos.

Lahon afirma mesmo que era fácil encontrar, depois da primeira metade do sec. XVI, Irmandades do Rosário de Homens Pretos, em quase todas as povoações em que o número de escravos fosse significativo. Muitas delas não estariam legalizadas mas seriam toleradas.

Assim referenciam-se, depois de 1550, confrarias de negros em Alcácer do Sal, Setúbal, Estremoz, Vila Viçosa, Grândola, Montemor-o-Novo, Aljezur, Tavira e Lagos.

Dos inícios do sec. XVII datam as de Faro, Portimão, Santarém, Leiria e Porto. Esta cidade chegou a ter em simultâneo 4 confrarias de Homens Pretos, 3 delas do Rosário. Na Sé de Braga existe uma capela barroca da Senhora do Rosário dos Pretos.

Mahon, que continuamos a seguir aqui, está seguro que multas outras existiram e foram esquecidas. Aponta até o curioso caso das Irmandades do Rosário de Moncorvo e de Carviçais, localidades de Trás-os-Montes, muito próximas, que ainda no início do sec. XX … faziam acompanhar as procissões duma “dança dos pretos”, executada por alguns brancos, com a cara pintada de preto.

Outras Irmandades de negros em Lisboa

Entretanto tinha continuado a aumentar em Lisboa o número de cativos, pelo que apareceram mais organizações pias, apenas destinadas a negros.

Cerca de 1580, decorrendo ainda o diferendo em S. Domingos, tinham já surgido mais duas Irmandades de homens negros, a Confraria da Senhora de Guadalupe, no Convento de S. Francisco da Cidade, e Confraria de Jesus, Maria, José, no Convento do Carmo.

Em 1630 aparece a Irmandade da Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Contento do Salvador; de religiosas dominicanas, em Alfama, que mais tarde teve muitos privilégios e se estendeu ao Brasil.

Pouco depois da Restauração de 1640, D. João IV voltou a autorizar a Irmandade da Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Convento de S. Domingos, numa época em que o nosso relacionamento com a Cúria Romana era muito difícil, pois esta não reconhecia a independência de Portugal.

Dentro de uma linha semelhante, sua esposa a Rainha D. Luísa de Gusmão, a instâncias dos Dominicanos Irlandeses, fundou em 1659 o Colégio de Nossa Senhora do Rosário, destinado ao ensino, no local do actual Convento do mesmo nome, no Corpo Santo, em Lisboa, mas sem qualquer relação com os cativos.

A Irmandade da Senhora do Rosário dos Homens Pretos, restaurada por D. João IV, sentindo-se indesejada em S. Domingos, resolveu instalar a sua sede na Igreja da Anunciada, talvez por volta de 1644, onde ficou muitos anos.

Este templo veio abaixo com o terramoto de 1755, pelo que de novo se transferiu a confraria para o Convento de Santa Joana, hoje desaparecido, que ficava perto da actual esquadra de polícia de Santa Marta.

Por volta de 1680 surgiu a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário a Resgatada, no Convento da Trindade, no Bairro Alto, e outra Irmandade do Rosário do Convento da Graça, cujo belíssimo altar ainda hoje persiste nessa igreja. Ambas admitiam negros.

Nos princípios de setecentos foi criada no Convento de Jesus outra Irmandade de Jesus, Maria, José. Na sua proximidade ficava o célebre Poço dos Negros, que era enorme e que se encontrava seco, e onde se lançavam certos cadáveres dos cativos falecidos, juntamente com grandes quantidades de cal. Assim funcionou vários séculos como cemitério.

Em várias capelas destas Irmandades foram veneradas também imagens de santos negros, das quais a mais vulgar é a de S. Benedito. Mas também se podem encontrar Santo António de Noto (ou Santo António Negro), Santo Elesbão, Santa Efigénia (protectora das cidades contra incêndios), São Diogo de Alcalá e S. Martinho de Lima ou de Porres.

Os Círios do Rosário

O terramoto de 1775 derrubou e incendiou grande parte do Convento de S. Domingos, ficando destruída a Capela do Rosário e a respectiva imagem de prata da Senhora, que era considerada uma das mais milagrosas que existiam em Lisboa.

Nessa data apenas permanecia em S. Domingos a Irmandade dos Homens Brancos, que na altura se chamaria Congresso da Confraria dos Escravos de Nossa Senhora do Rosário. Felizmente salvaram-se alguns documentos do seu cartório.

Teria sido, aparentemente, essa instituição que, desde a cisão das duas Irmandades, promovia o Círio do Rosairinho, que se realizava talvez desde os meados do sec. XVI, optando os negros pelo Círio da Atalaia, que já se fazia nos primeiros anos do mesmo século.

Mais tardiamente, a abolição oficial da escravatura, que se foi realizando em Portugal desde o Marquês de Pombal até ao último terço do século XIX, terá contribuído para que o culto do Rosário fosse perdendo os seus aspectos os seus aspectos mais ligados às diferenças raciais, vindo depois a estabilizar-se como uma devoção popular comum.

Traço importante desse culto foram os círios, actualmente muito estudados, que são manifestações religiosas que envolvem deslocações a determinados santuários localizados noutras terras, em cumprimento de votos antigos, e que o povo sente que deve manter, sob pena de se reduzir a protecção divina.

Por parte dos peregrinos é costumeira a oferenda de círios, que são grandes velas de cera que são levadas ao santuário e aí deixadas arder. São vulgares também outras oferendas em géneros, jóias e dinheiro.

Os antropólogos costumam salientar os componentes de religião popular destes círios, avultando o pagamento da promessa e o auto-sacrifício da jornada, mas também a componente da festa, que costuma seguir-se quase inevitavelmente, muitas vezes com aspectos profanos bem vincados, que contrariam por vezes os ditames da religião oficial, que se interessa sobretudo pelas manifestações litúrgicas e pelos actos de fé.

Tem-se especulado, de modo mais ou menos racional, sobre a eventual ligação entre estas peregrinações e certos cultos pré-cristãos diversos, em especial a santuários marianos. Devemos confessar algum cepticismo em relação a algumas destas interpretações, pois muitas delas são perfeitamente datáveis nos seus inícios, e estão longe de recuar, sequer, aos tempos dos mouros.

A tradição dos Círios no Barreiro

O Círio mais antigo de que há notícia no Barreiro era o que anualmente se realizava a Nossa Senhora dos Anjos, cuja capela ficava na Igreja Matriz de Alhos Vedros, onde ainda hoje uma sua imagem muito antiga se encontra.

A ela estavam obrigados a ir os moradores do Barreiro, com seu capelão. Estava ligado a uma promessa antiga de acção de graças pela libertação do domínio dos mouros.

Vários autores recolhem a tradição de que logo após a conquista de Lisboa, os muçulmanos, que ainda continuavam no Castelo de Palmela, terão atacado os cristãos de Alhos Vedros, que já existiria como povoação e teria uma pequena capela.

Estes fiéis, necessariamente moçarabes, estavam reunidos para celebrar o Domingo de Ramos, desarmados, e levando consigo apenas ramos de palmeiras, como era habitual na data. E apenas com esses ramos teriam conseguido vencer os mouros de Palmela, que os atacaram, sendo este facto considerado um milagre da Senhora.

A esse Círio estavam igualmente obrigados os moradores do Lavradio e das Verderenas.

Com a passagem do Barreiro a freguesia, em 1487, foi-se atenuando o cumprimento desta obrigação, o que foi contestado pela paróquia de Alhos Vedros, levando o Mestrado da Ordem de Santiago a emitir uma carta de determinação em 12 de Abril de 1523, obrigando ao cumprimento de tal promessa.

Ao transformar em determinação oficial da Igreja a promessa antiga, voto do povo, este deve ter perdido grande parte da sua motivação, passando a cumpri-la no mínimo que podia ou mesmo não a cumprindo.

Em 23 de Maio de 1695, na sequência de protesto idêntico por parte da Câmara de Alhos Vedros, D. Pedro II emitiu um alvará de confirmação daquelas obrigações, de que recorreu a vila do Lavradio, perdendo a causa.

Mas o que é certo é que deste Círio não houve mais noticia, passando a registar-se apenas no Barreiro o Círio da Atalaia, cuja imagem se encontrava na Capela da Misericórdia.

Temos pouca informação local sobre este assunto. Sabe-se que o povo o fazia na segunda-feira depois do último domingo de Agosto, desde 1723. Talvez tenha depois havido quebras, mas foi reatado em 1860, no mesmo dia do ano.

Cada Círio tendia a acampar num lugar fixo, onde muitas vezes se acabava por construir alojamentos permanentes, chamadas Casas do Círio, de que o Santuário do Cabo Espichel representa o exemplo mais monumental.

Ao longo dos séculos surgiram variados diferendos entre os Círios e os Párocos locais, aqueles muito interessados nos aspectos lúdicos das festividades, estes tentando pôr alguma ordem litúrgica no sistema. Esses pequenos conflitos são muito elucidativos sobre as motivações profundas destas manifestações populares, e da sua análise cuidadosa alguma matéria nova pode sempre surgir.

Com maiores ou menores variantes, e com brilhos diferentes conforme os anos, essas devoções persistiram, e mantêm-se vivas e activas nos nossos dias, quer em Portugal, quer noutros países, como a Espanha. Por exemplo a Virgem del Rocio, no sul deste país, chega a juntar muitas centenas de milhares de pessoas.

As grandes aparições marianas do século XIX, as Virgens de La Sallete e de Lourdes, geraram grandes peregrinações de crentes, que do ponto de vista formal devem ser encaradas como Círios, não só pelos aspectos de peregrinação e concentração de carácter religioso que envolvem, como pela tremenda quantidade de velas de cera oferecidas.

É curioso que, nos relatos de ambas as aparições se conta que as Virgens recomendaram vivamente a intensificação do culto do Rosário, em reacção contra o positivismo que alastrava como óleo por todo o mundo cristão. O clero teve o cuidado de seguir estas linhas, aparentemente com resultado benéfico para a Igreja Católica.

O mesmo se passou nas aparições de Fátima. Este local viria a tornar-se no altar de Portugal e mais tarde de todo o mundo, sendo actualmente o mais importante Santuário Mariano da cristandade, sob a invocação de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, pelo que o estudo das origens e evoluções desse culto em Portugal deviam merecer mais atenção.

Neste sentido também se orienta este trabalho.

O Barreiro dos primeiros tempos e a sua evolução

O  surto de desenvolvimento urbano que se verificou na Margem Sul do estuário do Tejo data, pelo menos, de meados do sec. XV, e acabou por levar a criação da freguesia do Barreiro, no antigo concelho de Alhos Vedros, em 12 de Fevereiro de 1487, por Carta da Ordem de Santiago, assinada pelo seu Mestre, o Príncipe D. João, futuro Rei D. João II, o que só se justificaria para uma população já significativa.

Recorde-se que tanto o Barreiro como Alhos Vedros foram duas das muitas comendas da Ordem de Santiago, por sinal sempre atribuídas à Mesa Mestral.

A Ordem nomeava os párocos e os outros beneficiados, recolhia os rendimentos, e exercia forte autoridade sobre o território, pois a Ordem era senhora da terra, da água e do vento, sendo necessária a sua permissão para inúmeras actividades.

O orago da Freguesia do Barreiro ficou a ser a Santa Cruz, culto então muita em voga, e que alguns anos mais tarde seria igualmente invocado para o Brasil.

A elevação do Barreiro a Concelho, por foral concedido em 1521 por D. Manuel I, continua a atestar esse progresso, integrando também a vila no processo da vasta reforma administrativa e fiscal a que então se procedia.

Está bem documentado que este surto de desenvolvimento da Margem Sul foi simultâneo com o de Lisboa, embora em muito menor escala e com ligeiro atraso.

Detecta-se um forte aumento populacional na zona correspondente ao actual concelho do Barreiro, bem como uma expansão importante dos seus agregados urbanos, quer no Barreiro e no Lavradio, quer em Palhais e em Coina, este na altura ainda concelho independente, com foral concedido pelas Comendadeiras de Santos, também da Ordem de Santiago.

De qualquer modo verificou-se também na região um significativo desenvolvimento de várias produções, usando tecnologias que têm sido classificadas como proto-industriais.

Nelas se destacam com muita expressão o sal e o vinho, destinados aos mercados locais e ao carregamento das naus.

O corte de lenhas e ramagens, para venda em Lisboa, tornaram a Margem Sul a principal fonte de produtos energéticos da capital, da qual esta passou a depender em grande parte.

Desde meados do século XV tinham tido também grande aumento os Fornos Reais do Vale do Zebro, situados perto de Palhais, onde, desde o reinado de D. Afonso V, se fabricava o biscoito para as armadas do Reino, em tonelagens impressionantes, que subiram muito durante a expansão portuguesa. Utilizavam grande número de cativos, quase todos negros.

Muitas pessoas se interrogam sobre o que seria o biscoito. Não passava de farinha sem fermento, cozida duas vezes, pelo ficava com consistência de bolacha. A bordo era aquecida em grandes pratos de barro, perdia a sua dureza, e era consumido com acompanhamentos variados, exactamente da mesma maneira que hoje comemos as célebres pizzas italianas, de que o biscoito é o antepassado directo. O segredo estava na massa…

Os fornos de cerâmica, situados nas proximidades dos Fornos d’el Rey, que produziam louça de barro, utilizavam igualmente mão de obra escrava. Conhecemos hoje a tipologia dos seus produtos, revelada através das explorações arqueológicas de Cláudio Torres, que marcaram o arranque da Arqueologia Medieval em Portugal.

Sabemos que aí era fabricada muita cerâmica comum, de formas simples, para uso a bordo. Também saíam recipientes cónicos alongados, daqui exportadas para o Brasil e para a Ilha da Madeira, destinados à produção dos pães de açúcar.

Igualmente se faziam os grandes pratos-biscoiteiros de barro, usados para aquecer o biscoito a bordo dos barcos, com dimensões semelhantes às das actuais pizzas dos restaurantes.

Numerosos exemplares destas várias produções cerâmicas, cuja tipologia exacta era desconhecida, foram pela primeira vez revelados nestas escavações.

Mais recentemente, escavações realizadas noutro forno de tipo semelhante, perto de Santo António da Charneca, vieram demonstrar ter sido aqui que surgiram os primeiros exemplares de azulejos fabricados em Portugal. A técnica utilizada foi a sevilhana, pelo processo da corda seca. Os exemplares, muito toscos, podem ser vistos na Reserva Museológica Municipal.

É de admitir que qualquer das indústrias acima citadas tivesse utilizado cativos, na sua laboração.

Também muitos escravos foram utilizados nos moinhos de maré, de grande capacidade, situados na orla fluvial do Barreiro, Palhais, Coina, Seixal, Corroios, Alhos Vedros, Sarilhos e Aldeia Galega, contando-se cerca de 60 unidades em meados do século XVI, segundo Gaspar Frutuoso.

Uma parte grande da farinha produzida, em especial dos moinhos mais próximos, destinava-se ao abastecimento dos Fornos d’el Rey para a produção do biscoito. O restante seria consumido localmente e na capital.

 

O  transporte fluvial e a pesca no Barreiro

Nesse período aumentam muito os barcos disponíveis para o transporte fluvial. Em 1552 João Brandão conta 4 barcas no Barreiro, 4 no Lavradio e 6 em Coina, exclusivamente dedicadas ao frete comercial. Neste número não se contavam os barcos dos moinhos, que carregavam exclusivamente cereais e farinhas.

Também a pesca deve ter conhecido notável desenvolvimento, pelo aumento da procura do marisco e do pescado, com muitos barcos na faina, com redes e linhas. Um bom número de escravos negros foram tripulantes de barcos do Tejo, ou mesmo pescadores. Alguns deles eram linheiros, pescando à linha, a partir da margem ou em pequenas embarcações.

Estas actividades tenderiam a aproximar esses cativos negros dos pescadores e marinheiros locais, nos seus sistemas de crenças religiosas, sendo essas relações um ponto a tentar investigar mais detidamente.

Segundo o mesmo João Brandão, em meados do sec. XVI, as redes de pesca eram de dois tipos – chinchas (redes de cerco lançadas a partir da praia e que a ela voltavam) e tartaranhas (redes de arrasto montadas em varas longas, os paus de tartaranha), estas últimas armadas em embarcações tripuladas por oito homens, que deveriam ser bateiras, antepassados menores das muletas.

A estas muletas, todavia, vamos encontrar já várias referências no Livro dos Regimentos dos Oficiais Mecânicos da mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa de 1572, publicado por Virgílio Correia, embora aí apenas as encontremos como barcos destinados a transporte.

Mas é natural que muito cedo as bateiras armadas com redes de tartaranha passassem a ser conhecidas como muletas, como refere Nicolau de Oliveira que, em 1620, descrevia no rio …muitos bateiros pequenos a que chamamos moletas…, o que leva a admitir, para este tipo de barcos e para esta arte de pesca, cronologias talvez mais antigas dos que as habitualmente aceites, recuando-as pelo menos ao século XVI.

As muletas eram embarcações de fundo achatado e proa semicircular com bicos de ferro. Praticavam o arrasto atravessadas ao vento, o que fazia com que se deslocassem de lado, técnica essa de que não se conhecem outros exemplos. Durante essa faina armavam um jogo complexo de velas, que chegavam a ser nove diferentes, atingindo uma grande superfície, conferindo à embarcação uma elevada potência de trabalho.

As muletas eram construídas em pequenos estaleiros do Barreiro e do Seixal e pescavam algumas vezes no rio, mas de preferência fora da barra, na zona entre o Cabo da Roca e a Lagoa de Albufeira, sendo essa área conhecida como o mar da muleta, fazendo base na praia de Cascais, e remetendo o pescado para a Ribeira de Lisboa em barcos menores, chamados enviadas.

As muletas vieram a aumentar muito em número e em porte durante o século XIX. Por volta de 1880 começaram a ser substituídas por botes da muleta, de fundo em quilha e proa arqueada, chegando a existir 8 destes barcos no Barreiro.

Para isso contribuiu a atracção por postos de trabalho na indústria dos grandes complexos fabris aqui montados desde a chegada do caminho de ferro em 1861. Primeiro da actividade cortiçeira desde 1880, depois da industria química pesada e seus derivadas, a partir da chegada da CUF em 1907.

O  intenso surto de migração interna que se foi verificando para o Barreiro foi aumentando muito a sua população, mas sem que se notasse nos recem-chegados absorção significativa pela actividade pesqueira, que continuou intimamente ligada aos residentes antigos.

A mecanização crescente da indústria pesqueira e as novas técnicas de cerco e arrasto, acabaram por tornar mais tarde obsoletos e pouco rentáveis os botes da muleta, que acabaram por se extinguir nos anos 30 do século XX.

Todavia, ao observarmos gravuras ou fotografias de muletas na arte do arrasto, com todas as suas nove velas ao vento, ficamos sempre a pensar que belo e estranho espectáculo elas não seriam no nosso Tejo, insólito e atractivo para nacionais e estrangeiros. Existem planos minuciosos, que permitiriam construir de novo um desses insólitos barcos. Um sonho que custaria vinte a trinta mil contos, mas representaria um incalculável valor patrimonial.

O Barreiro dos primeiros tempos e a sua evolução

O  surto de desenvolvimento urbano que se verificou na Margem Sul do estuário do Tejo data, pelo menos, de meados do sec. XV, e acabou por levar a criação da freguesia do Barreiro, no antigo concelho de Alhos Vedros, em 12 de Fevereiro de 1487, por Carta da Ordem de Santiago, assinada pelo seu Mestre, o Príncipe D. João, futuro Rei D. João II, o que só se justificaria para uma população já significativa.

Recorde-se que tanto o Barreiro como Alhos Vedros foram duas das muitas comendas da Ordem de Santiago, por sinal sempre atribuídas à Mesa Mestral.

A Ordem nomeava os párocos e os outros beneficiados, recolhia os rendimentos, e exercia forte autoridade sobre o território, pois a Ordem era senhora da terra, da água e do vento, sendo necessária a sua permissão para inúmeras actividades.

O orago da Freguesia do Barreiro ficou a ser a Santa Cruz, culto então muita em voga, e que alguns anos mais tarde seria igualmente invocado para o Brasil.

A elevação do Barreiro a Concelho, por foral concedido em 1521 por D. Manuel I, continua a atestar esse progresso, integrando também a vila no processo da vasta reforma administrativa e fiscal a que então se procedia.

Está bem documentado que este surto de desenvolvimento da Margem Sul foi simultâneo com o de Lisboa, embora em muito menor escala e com ligeiro atraso.

Detecta-se um forte aumento populacional na zona correspondente ao actual concelho do Barreiro, bem como uma expansão importante dos seus agregados urbanos, quer no Barreiro e no Lavradio, quer em Palhais e em Coina, este na altura ainda concelho independente, com foral concedido pelas Comendadeiras de Santos, também da Ordem de Santiago.

De qualquer modo verificou-se também na região um significativo desenvolvimento de várias produções, usando tecnologias que têm sido classificadas como proto-industriais.

Nelas se destacam com muita expressão o sal e o vinho, destinados aos mercados locais e ao carregamento das naus.

O corte de lenhas e ramagens, para venda em Lisboa, tornaram a Margem Sul a principal fonte de produtos energéticos da capital, da qual esta passou a depender em grande parte.

Desde meados do século XV tinham tido também grande aumento os Fornos Reais do Vale do Zebro, situados perto de Palhais, onde, desde o reinado de D. Afonso V, se fabricava o biscoito para as armadas do Reino, em tonelagens impressionantes, que subiram muito durante a expansão portuguesa. Utilizavam grande número de cativos, quase todos negros.

Muitas pessoas se interrogam sobre o que seria o biscoito. Não passava de farinha sem fermento, cozida duas vezes, pelo ficava com consistência de bolacha. A bordo era aquecida em grandes pratos de barro, perdia a sua dureza, e era consumido com acompanhamentos variados, exactamente da mesma maneira que hoje comemos as célebres pizzas italianas, de que o biscoito é o antepassado directo. O segredo estava na massa…

Os fornos de cerâmica, situados nas proximidades dos Fornos d’el Rey, que produziam louça de barro, utilizavam igualmente mão de obra escrava. Conhecemos hoje a tipologia dos seus produtos, revelada através das explorações arqueológicas de Cláudio Torres, que marcaram o arranque da Arqueologia Medieval em Portugal.

Sabemos que aí era fabricada muita cerâmica comum, de formas simples, para uso a bordo. Também saíam recipientes cónicos alongados, daqui exportadas para o Brasil e para a Ilha da Madeira, destinados à produção dos pães de açúcar.

Igualmente se faziam os grandes pratos-biscoiteiros de barro, usados para aquecer o biscoito a bordo dos barcos, com dimensões semelhantes às das actuais pizzas dos restaurantes.

Numerosos exemplares destas várias produções cerâmicas, cuja tipologia exacta era desconhecida, foram pela primeira vez revelados nestas escavações.

Mais recentemente, escavações realizadas noutro forno de tipo semelhante, perto de Santo António da Charneca, vieram demonstrar ter sido aqui que surgiram os primeiros exemplares de azulejos fabricados em Portugal. A técnica utilizada foi a sevilhana, pelo processo da corda seca. Os exemplares, muito toscos, podem ser vistos na Reserva Museológica Municipal.

É de admitir que qualquer das indústrias acima citadas tivesse utilizado cativos, na sua laboração.

Também muitos escravos foram utilizados nos moinhos de maré, de grande capacidade, situados na orla fluvial do Barreiro, Palhais, Coina, Seixal, Corroios, Alhos Vedros, Sarilhos e Aldeia Galega, contando-se cerca de 60 unidades em meados do século XVI, segundo Gaspar Frutuoso.

Uma parte grande da farinha produzida, em especial dos moinhos mais próximos, destinava-se ao abastecimento dos Fornos d’el Rey para a produção do biscoito. O restante seria consumido localmente e na capital.

O  transporte fluvial e a pesca no Barreiro

Nesse período aumentam muito os barcos disponíveis para o transporte fluvial. Em 1552 João Brandão conta 4 barcas no Barreiro, 4 no Lavradio e 6 em Coina, exclusivamente dedicadas ao frete comercial. Neste número não se contavam os barcos dos moinhos, que carregavam exclusivamente cereais e farinhas.

Também a pesca deve ter conhecido notável desenvolvimento, pelo aumento da procura do marisco e do pescado, com muitos barcos na faina, com redes e linhas. Um bom número de escravos negros foram tripulantes de barcos do Tejo, ou mesmo pescadores. Alguns deles eram linheiros, pescando à linha, a partir da margem ou em pequenas embarcações.

Estas actividades tenderiam a aproximar esses cativos negros dos pescadores e marinheiros locais, nos seus sistemas de crenças religiosas, sendo essas relações um ponto a tentar investigar mais detidamente.

Segundo o mesmo João Brandão, em meados do sec. XVI, as redes de pesca eram de dois tipos – chinchas (redes de cerco lançadas a partir da praia e que a ela voltavam) e tartaranhas (redes de arrasto montadas em varas longas, os paus de tartaranha), estas últimas armadas em embarcações tripuladas por oito homens, que deveriam ser bateiras, antepassados menores das muletas.

A estas muletas, todavia, vamos encontrar já várias referências no Livro dos Regimentos dos Oficiais Mecânicos da mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa de 1572, publicado por Virgílio Correia, embora aí apenas as encontremos como barcos destinados a transporte.

Mas é natural que muito cedo as bateiras armadas com redes de tartaranha passassem a ser conhecidas como muletas, como refere Nicolau de Oliveira que, em 1620, descrevia no rio …muitos bateiros pequenos a que chamamos moletas…, o que leva a admitir, para este tipo de barcos e para esta arte de pesca, cronologias talvez mais antigas dos que as habitualmente aceites, recuando-as pelo menos ao século XVI.

As muletas eram embarcações de fundo achatado e proa semicircular com bicos de ferro. Praticavam o arrasto atravessadas ao vento, o que fazia com que se deslocassem de lado, técnica essa de que não se conhecem outros exemplos. Durante essa faina armavam um jogo complexo de velas, que chegavam a ser nove diferentes, atingindo uma grande superfície, conferindo à embarcação uma elevada potência de trabalho.

As muletas eram construídas em pequenos estaleiros do Barreiro e do Seixal e pescavam algumas vezes no rio, mas de preferência fora da barra, na zona entre o Cabo da Roca e a Lagoa de Albufeira, sendo essa área conhecida como o mar da muleta, fazendo base na praia de Cascais, e remetendo o pescado para a Ribeira de Lisboa em barcos menores, chamados enviadas.

As muletas vieram a aumentar muito em número e em porte durante o século XIX. Por volta de 1880 começaram a ser substituídas por botes da muleta, de fundo em quilha e proa arqueada, chegando a existir 8 destes barcos no Barreiro.

Para isso contribuiu a atracção por postos de trabalho na indústria dos grandes complexos fabris aqui montados desde a chegada do caminho de ferro em 1861. Primeiro da actividade cortiçeira desde 1880, depois da industria química pesada e seus derivadas, a partir da chegada da CUF em 1907.

O  intenso surto de migração interna que se foi verificando para o Barreiro foi aumentando muito a sua população, mas sem que se notasse nos recem-chegados absorção significativa pela actividade pesqueira, que continuou intimamente ligada aos residentes antigos.

A mecanização crescente da indústria pesqueira e as novas técnicas de cerco e arrasto, acabaram por tornar mais tarde obsoletos e pouco rentáveis os botes da muleta, que acabaram por se extinguir nos anos 30 do século XX.

Todavia, ao observarmos gravuras ou fotografias de muletas na arte do arrasto, com todas as suas nove velas ao vento, ficamos sempre a pensar que belo e estranho espectáculo elas não seriam no nosso Tejo, insólito e atractivo para nacionais e estrangeiros. Existem planos minuciosos, que permitiriam construir de novo um desses insólitos barcos. Um sonho que custaria vinte a trinta mil contos, mas representaria um incalculável valor patrimonial.

A comunidade piscatória do Barreiro e seus cultos

Como mostrou Ramos de Oliveira, as comunidades piscatórias tradicionais tendem a formar sistemas relativamente fechados, registando-se com frequência alguma dominância matriarcal.

As redes de parentesco, por vezes de malha relativamente estreita, asseguravam com frequência a abertura e a permanência dos postos de trabalho, entre os pescadores e os seus descendentes, nestas comunidades em que as oportunidades de emprego eram escassas.

A nível dos proprietárias dos meios de produção – barcos e aparelhos de pesca – sucedia o mesmo, sendo frequentes os casamentos entre essas famílias, para conservação e aumento da base patrimonial, mas também para garantir uma estrutura alargada de postos de trabalho, que mantivesse no seu interior os pescadores mais antigos e experientes, que muitas vezes eram o factor decisivo na rentabilidade das embarcações.

Eram portanto sistemas muito coesos e pouco abertos. No Barreiro essa gente ligada às actividades da pesca e do frete marítimo era conhecida, no seu conjunto, como os camarros.

Contrastavam com outra comunidade, na sua maioria residente na zona do actual Largo das Obras, que subsistiam da mariscagem e da apanha de isco, nas zonas lamacentas da praia, postas a descoberto pela maré baixa. Ainda mais pobres, gozavam de muito menor consideração social e eram conhecidos como os calcanhares rachados, por terem muitas vezes os pés cortados pelas cascas afiadas das ostras, os carcanhois, que na altura abundavam em grandes bancos no fundo do rio.

Os camarros viviam todos na zona ribeirinha, possuíam uma maneira de falar própria, algo arrastada e com inflexão insólitas, que ainda hoje são correntes nos idosos residentes ou educados na zona. Mantinham um grau elevado de solidariedade, em especial nos períodos de depressão económica.

Procissão do Rosário em 1884 – Barreiro

Até aos anos 30 eram algo dificultados os casamentos no exterior do grupo, excepto com gente ligada à grande indústria aqui instalada, que garantia estatuto social mais elevado.

Neste grupo dedicado às actividades marítimas, os sistemas de crenças eram igualmente muito fixos, dominando localmente o Senhor Jesus dos Navegantes e Nossa Senhora do Rosário, como representantes paterno e materno da Divindade,

Havia também devoção a alguns santos, em que ressaltava Santo António e São Pedro. Este não era em geral o São Pedro Apóstolo, mas sim S. Pedro Gonçalves Telmo, tradicional padroeiro dos pescadores, das suas irmandades, e dos seus Compromissos Marítimos, que funcionavam como associações de socorros mútuos.

Os homens do mar associavam a sua intervenção nas tempestades ao aparecimento, nos mastros dos navios, dos conhecidos fogos de Santelmo, que eram descargas de electricidade estática, entre a água e as nuvens muito carregadas, e que em geral surgiam já na fase final das tempestades. Daí que a ocorrência destes fenómenos se tenha ligado à intervenção do Santo, muito invocado durante os temporais.

No Barreiro, a grande devoção incidia na Virgem do Rosário. Tradicionalmente os proprietários e tripulantes dos barcos de pesca, bem como as respectivas famílias, foram sempre grandes devotos de Nossa Senhora do Rosário, continuando uma tradição local já fixada,  e que já datava, pelo menos, do século XVI, como temos vindo a apontar.

A Real Irmandade dos Escravos de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro

Provavelmente desde o século XVI, existia na praia norte a ermida de S. Roque, que já tinha sido já restaurada pela Confraria de S. Pedro. Aqui acabou por se instalar, por cedência dos pescadores, desde 26 de Agosto de 1736, o Congresso da Confraria dos Escravos de Nossa Senhora do Rosário, com sede na Igreja de S. Domingos de Lisboa.

Segundo uma tradição recolhida por Silva Pais, a decisão de instalar esta Confraria teria resultado do belo acolhimento aqui feito à imagem desta Virgem, numa ocasião em que fortes ventos contrários impediram a chegada ao Rosairinho da Moita do círio fluvial, que anualmente aí se deslocava desde longa data, a partir de Lisboa.

O Círio do Rosairinho, nesse ano do vendaval, teria então arribado ao Barreiro, ficando a imagem guardada nessa ermida, onde muita gente lhe foi prestar culto. Essa romagem anual era organizada pela Devotos Escravos de Nossa Senhora do Rosário do Mosteiro de S. Domingos de Lisboa, já de há muitos anos exclusivamente de homens brancos, uma vez que os negros se tinham fixado noutras igrejas de Lisboa, e faziam o seu Círio na Atalaia.

Recorde-se que esta Irmandade de S. Domingos era a continuadora directa da primeira das Irmandades do Rosário estabelecida em Portugal. Ou melhor, era a mesma Irmandade, talvez com o nome ligeiramente modificado.

Os documentos da Real Irmandade dos Escravos de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro, ainda hoje viva e activa, não citam directamente a tradição do vendaval, embora também não a neguem em absoluto. Mas o simples facto de não a citarem, numa época em que o seu conhecimento seria corrente, levanta-nos sérias dúvidas sobre o seu real valor. Talvez outros factores, que com o tempo se esqueceram, tenham sido mais decisivos, como a maior proximidade de Lisboa, ou influências de alguns notáveis locais…

Miguel Inácio de Medeiros, ao fazer o historial da Irmandade, no que respeita à mudança do local do Círio, diz o seguinte: ,,sobrevindo-lhe alguns inconvenientes, que lhes embaraçava a continuação da dita festividade, resolveram os ditos Devotos fazer celebrar a dita festividade em uma das Igrejas da parte do Sul, que estivesse próxima à dita cidade de Lisboa. Constando desta resolução na Villa do Barreiro em /736, os Irmãos da Irmandade de S. Pedro da mesma Villa, que estava na posse da Ermida de S. Roque por não existirem já irmãos da Irmandade deste Santo… se ajustaram com os ditos Devotos Escravos de Nossa Senhora a entregarem-lhe a referida Ermida…

Desta entrega se lavrou escritura pública do acordo entre as partes, registada no Tabelião do Barreiro, António Alvares da Veiga, em 26 de Agosto de 1736, ficando como fabriqueiros os referidos Devotos Escravos, que passaram a ter todo o domínio e posse da Ermida.

O que é certo é que a imagem da Virgem do Rosário que era usada no Círio do Rosairinho foi entronizada na Capela da praia desta vila, e aí se teria mantido ao culto, passando a peregrinação anual, no primeiro domingo de Setembro, a vir de Lisboa ao Barreiro, deixando de fazer-se ao Rosairinho.

O novo Círio passou a receber romeiros da margem norte, havendo um diálogo preferencial entre certas freguesias de Lisboa e o Barreiro, algo diferente do que sucedia nos outros santuários marianos da Península da Arrábida, em que várias localidades se encontravam envolvidas.

A capela do Barreiro recebeu portanto a partir de 1736 a imagem de Nossa Senhora do Rosário, deixando de se fazer a romaria ao Rosairinho da Moita, e passando o templo a ter o título oficial de Ermida da Irmandade dos Escravos de Nossa Senhora do Rosário.

Data desse ano a implantação dos Devotos Escravos de Nossa Senhora do Rosário no Barreiro, cabendo-lhe a responsabilidade de organizar as festas, receber os romeiros, e manter cuidada a Capela.

Deviam ser festas concorridas, pois já em 1739 os confrades compraram certos edifícios da actual Rua Almirante Reis, ao lado da Igreja, e procederam a várias obras, para poder acolher com dignidade os festeiros de Lisboa. Essas casas ainda hoje são conhecidos como Casas da Irmandade ou Casas do Círio, e bem mereceriam adequado restauro.

As festas eram, como é habitual nos círios, constituídas por um componente religioso, bem vincado e programado – missas, sermões, procissão, etc. – e por outro profano, com os atractivos habituais – feira, diversões e música.

O terramoto de 1755 não produziu, felizmente, muitos estragos no Barreiro, onde apenas faleceu uma pessoa. Mas a capela do Rosário sofreu vários danos, cuja reparação terminou em 1757.

Pouco tempo depois a Irmandade resolveu erigir um novo templo, muito maior, no mesmo local, pois a Ermida tinha-se tornado acanhada para tanta afluência. Manteve-se a estrutura do antigo edifício para capela-mor, e adicionou-se-lhe um amplo carpo de igreja, que até aos nossos dias se tem conservado.

Após varias anos de obras, a nova Igreja dos Escravos de Nossa Senhora do Rosário já estaria aberta ao culto em 1781, quando D. Maria 1 aprovou oficialmente os novos Estatutos da confraria, apresentados em 16 de Julho de 1780 e aprovados em 1 de Junho de 1781.

A Confraria passou a chamar-se Real Irmandade dos Escravos de Nossa Senhora do Rosário, que se venera na sua Igreja do Barreiro. A Rainha ficou a ser a sua primeira Protectora Perpétua, título que depois mantiveram os restantes soberanos portugueses.

A primeira Mesa da nova Irmandade foi eleita em 20 de Agosto de 1781. Esta confraria, como se vê, apenas mudou de nome, e mantém-se na continuação directa da primitiva Irmandade do Rosário da Igreja de S. Domingos de Lisboa, a primeira em Portugal, e provavelmente no mundo.

As imagens de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro

Em 1781 já devia existir no Santuário do Barreiro a imagem grande de Nossa Senhora do Rosário, de roca, bela escultura da escola portuguesa, que permanece no altar-­mor, saindo apenas para as procissões.

Em 2 de Abril de 1791 a Mesa resolveu mudar a data das festividades para as concentrar à volta do 15 de Agosto, como continua a ser no presente, reservando o 16 de Agosto para celebrar S. Roque e encerrar a festa. A 13 o Círio vinha de Lisboa, com a imagem pequena numa galeota real, e voltava a 16.

No mesmo dia 2 de Abril de 1791 foi resolvido mandar fazer uma imagem pequena da Senhora, à semelhança da do Barreiro. Supomos que se trate de uma miniatura da representação grande do altar-mor. Nesse caso é natural que se trate da actual imagem pequena da Senhora do Rosário, hoje exposta no Santuário, e que passaria a andar no Círio.

Também por essa época devem ter sido oferecidos vários paramentos e objectos de culto, que ainda hoje se conservam, deles se destacando um fragmento do Santo Lenho, montado num belo relicário, um enorme rosário de ouro, e um peitoral de pedras preciosas. A benfeitora principal foi a própria Rainha D. Maria I.

Expansão do culto de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro

A Nossa Senhora do Rosário do Barreiro se atribuíam já na época numerosos milagres e atendimentos de solicitações, como atesta o livro Carta de Escravidão…, publicado em 1783, e os muitos ex-votos que o templo possui. Constituem, de facto, a maior colecção do Distrito de Setúbal, e um dos grandes conjuntos nacionais desta tão importante forma de arte popular.

Os vários milagres atribuídos à intercessão desta Virgem são minuciosamente descritos no livrinho, cujo frontispício publicámos no número anterior desta série de artigos. Existe, todavia, uma segunda edição do mesmo, saída em 1859, em que vários desses prodígios já não aparecem. A noção de milagre deve ter evoluído, com os avanços da ciência.

Em 1789 recebeu a Igreja de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro um Breve de Indulgências do Papa Pio VI, com invulgares privilégios. Segundo o Breve, visitar este templo concede aos fiéis indulgências semelhantes aos que visitam a Igreja de S. João de Latrão em Roma, considerada a Igreja-Mãe da Cristandade e Igreja privativa do Papa, na sua qualidade de Bispo de Roma.

Pouco tempo depois a Rainha D. Maria pretendeu ter sempre junto de si a milagrosa imagem, para procurar amparo para a doença que então a começava a afligir, e que degeneraria mais tarde em insanável loucura, que não a abandonou até à sua morte no Rio de Janeiro, num palacete ao lado da Igreja do Carmo, onde ainda hoje se recordam os gritos da infeliz Rainha nos seus delírios, como soubemos a partir de um guia local, quando visitámos este templo.

Esse desejo da Soberana provocou um sério sobressalto no povo local, que tinha receio que a imagem não voltasse, mas a vontade régia dominou, apesar da oposição, e ter-se-ia chegado a um acordo para que a pequena imagem da Virgem fosse para Lisboa.

Teria sido canonicamente aproveitada o facto de a Irmandade original ter a sua sede na Igreja de S. Domingos, no Rossio, onde se elegia a sua Mesa, e onde boa parte da Corte ouvia missa.

Uma decisão da Junta de Definição da Irmandade, de 30 de Junho de 1783, tinha já resolvido que apenas os Irmãos residentes na capital seriam elegíveis para cargos da confraria. Os não residentes em Lisboa eram considerados Irmãos Foreiros (de fora), não tendo direito a cargos.

Na prática, tal significava que as pessoas residentes no Barreiro não podiam pertencer à Mesa. E esta, lisboeta e afecta à Corte, decidiu que a imagem da Virgem ficaria em Lisboa, senda cedida para a Capela Real do Palácio de Queluz, onde esteve largos anos, provavelmente até à fuga da Família Real para o Brasil, durante a primeira Invasão Francesa, em1808.

É curioso saber que, em 1791, a Irmandade tinha 288 irmãos foreiros em várias freguesias de Lisboa, na Ilha Terceira 25, na ilha de S. Miguel 336, na Ilha Graciosa muitos, e na Bahia de Todos os Santos do Brasil 52. No Maranhão existia uma imagem de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro, a que se faziam grandes festas. Ignoramos que ligação tivessem ao Barreiro, mas é certo que contribuíam anualmente com largas dádivas para o culto.

Há pouco tempo, o Padre Manuel Pimentel, ex-pároco de Santa Cruz do Barreiro, localizou em Ponta Delgada uma valiosa imagem de Nossa Senhora da Rosário do Barreiro, datável dos fins do século XVIII, e que se encontra ao culto, assim legendada, na bela Igreja de S. José, testemunha segura da extensão deste culto peculiar.

O Círio manteve-se anualmente, vindo a imagem de Lisboa passar os dias de festa ao Barreiro, regressando até 1844 à Igreja da S. Domingos, até 1881 à Igreja da Madalena, e posteriormente a outras igrejas da baixa lisboeta.

A segunda Irmandade  –  a de Nossa Senhora do Rosário da Vila do Barreiro

A Real Irmandade dos Escravos de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro teve uma sua congénere, também no Barreiro, pois na igreja Matriz de Santa Cruz existiu durante muitos anos uma Irmandade de Nossa Senhora do Rosário da Vila do Barreiro. Supomos que seja a mesma de que há notícia de ter sido fundada, na mesma Igreja, em 1606.

Informalmente, até poderia ser bastante anterior e apenas ter sido legalizada apenas nessa data, pois há notícia de nesses anos a Ordem de Santiago ter ordenado a erecção canónica das confrarias existentes nas igrejas do seu padroado, na sequência das novas orientações dimanadas do Concílio de Trento. Tratar-se-ia, portanto, apenas de um processo de legalização de confrarias ainda informais.

Esta última Irmandade de Nossa Senhora do Rosário da Vila do Barreiro foi recentemente objecto de um estudo, publicado por Maria Manuela Saraiva Rodrigues, com muito interesse histórico, e que vale a pena ler, embora o texto não indique as datas de início e fim desta confraria. O livro da Irmandade a que o estudo se refere inicia-se em 1744.

Mas no arquivo da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro existe outro livro desta Irmandade, mais antigo, a que aquela autora não teve acesso.

Encadernado em pergaminho, tem na capa a legenda Tombo – Livro nº 1 dos legados da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário da Matriz do Barreiro.

O livro inicia-se em 1734, portanto dez anos antes do anteriormente citado, e nele parece haver referência à existência da Irmandade já em 1627, o que confirmaria a ideia de uma continuidade com a Confraria do Rosário legalizada em 1606. É claro que não podemos excluir que a de 1606 se tenha extinguido ou sido abolida, mas disso não conhecemos qualquer prova.

Este Livro de Tombo necessita ainda de ser estudado, pois a tinta está muito repassada nalgumas folhas, tornando a leitura paleográfica muito difícil. Registe-se, contudo, que contém várias obrigações de missas da confraria, que resultaram de legados vários, aí registados.

Fica-nos a sensação de que esta Irmandade do Rosário, na igreja Matriz, seria apenas uma evolução da anterior que, tendo talvez adormecido a sua actividade, mas dotada de património importante, teria que ter alguém que dele cuidasse.

Ter-se-iam feito ou não novos estatutos e a Irmandade surgia como nova em 1744, mas conservando talvez o património da antiga. Ou teria sido ressuscitada para efeitos de doação de novo e valioso património, como somos levados a suspeitar, pelas descrições de Manuela Saraiva, sobre esta Irmandade da Matriz.

Apenas hipóteses, mas uma coisa nos parece quase segura – esta evolução fez com a esta Irmandade fosse apenas de Homens Brancos, embora evidentemente não o declarasse, pois os tempos estavam a mudar. Mas é evidente que os seus irmãos não se intitulavam escravos.

O seu principal objectivo era a realização anual de uma festa na Matriz em honra da sua Padroeira, o que escassamente terá conseguido, pois as verbas eram curtas e o património malparado.

Esta segunda Irmandade terá tido vida complexa e dificuldades de relacionamento com a Irmandade da Capela do Rosário. Ambas tinham Mesa e irmãos que eram totalmente independentes, e chegaram a haver conflitos sérios entre elas, ao que sabemos.

José Augusto Pimenta, na sua Memória Histórica e Descriptiva da Villa do Barreiro, dá esta Irmandade do Rosário como tendo sido extinta por alvará de 21 de Maio de 1866, documento que desconhecemos. Mas o termo a/vará leva a admitir que se tratou de extinção compulsiva por autoridade civil.

Nessa obra se indica também que os seus bens foram entregues à Misericórdia, neles se incluindo uma imagem de Nossa Senhora do Rosário, que ficou na capela da dita Misericórdia, em frente da Matriz de Santa Cruz, e cujo paradeiro actual ignorámos. Dos seus bens, nada parece ter chegado àquela instituição, como esse autor aponta e comenta acidamente.

De interesse ainda, nesse texto, a anotação que nessa mesma Capela estava uma imagem de Nossa Senhora da Atalaia, a que durante muito anos se fez Círio no Barreiro.

Pelo livro de Manuela Saraiva se tinha ficado a saber que essa segunda irmandade possuía o Moinho do Cabo, na Alburrica, mesmo em frente da Estação Fluvial, e também uma vinha importante, chamada a Vinha de Nossa Senhora do lugar das Palmeiras, que supomos se estendia desde o actual Bairro das Palmeiras para sul, atingindo os terrenos onde foi construído o actual Hospital do Barreiro.

Por ironia do destino, este chama-se agora Hospital de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro.

O Santuário

O Santuário de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro é um belo templo de média dimensão, de uma só nave com transepto, com 2 torres sineiras. A torre do lado sul foi completada apenas em 1957, ficando igual à do lado norte esta construída em 1837 com valiosos donativos vindos da cidade de S. Luís do Maranhão, no Brasil, em cuja catedral existia uma Imagem de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro, a que se fazia grande festa..

A torre norte ostenta um valioso relógio setecentista, que veio do Convento de Palhais, fundado, como se sabe, por S. Pedro de Alcântara, que aí residiu, sendo o único Santo que alguma vez viveu nesta região.

O altar-mor apresenta boas talhas, e mostra ao centro uma imagem grande de roca da Padroeira, da escola portuguesa, com tipologia dos finais do séc. XVIII. Esta Virgem do Rosário é a que tradicionalmente sai nas procissões, envergando o vestido e o manto doados pela Rainha D. Maria I.

As belas e significativas imagens de S. Pedro e de S. Roque, que se encontram aos seu lados no altar-mor, parecem ser as primitivas das antigas confrarias, que a Real Irmandade veio substituir no mesmo local de culto.

Nos dois altares laterais do corpo da igreja existiam boas talhas, algo danificadas, desmontadas nos anos cinquenta. Nestes altares persistem duas boas telas setecentistas, de autores por determinar. Uma representa Nossa Senhora da Conceição e outra o martírio de um santo que teria sido soldado romano, e talvez provenham de outro templo.

Na sacristia encontra-se uma muito boa imagem de Nossa Senhora da Conceição, e uma outra tela, representando S. Paulo Eremita, datada e assinada por um frade de S. Bento, provavelmente originária do antigo Convento da Madre de Deus da Verderena, no Barreiro.

Existem igualmente uma bela imagem do Senhor dos Passos e outra de roca de Nossa Senhora da Saúde, ambas usadas nas Procissões da Semana Santa, e que provieram da Irmandade da Misericórdia do Barreiro, embora o Senhor dos Passos tivesse sido já talvez da Confraria de S. Pedro, se for esta a imagem a que José Augusto Pimenta se refere como a da sua antiga igreja.

Desta, já demolida, e que também foi depois Igreja de S. Francisco, diz-se que veio a trágica imagem setecentista desse Santo, com traços que lembram a escola espanhola, e que se encontra num nicho no corpo do Templo, do lado esquerdo.

A pequena imagem de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro

A pequena imagem de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro, linda escultura de madeira, já se encontra de novo exposta ao público desde 1998, num nicho ao lado da capela-mor.

Tem cerca de dois palmos de altura e o seu talhe é atribuído ao sec. XVIII. Foi repintada de modo algo pesado, em azul vermelho e a prata. Tem um magnífico grau de conservação, sendo de destacar os olhos de Nossa Senhora, feitos de vidro, e os olhos de Menino que leva ao colo, talvez pequenas pedras preciosas da família das granadas.

O estofo, o padrão escultórico, a finura de detalhe, sugerem um bom artista. Na sua base está inscrita a data de 15O8, toscamente traçada a ferro. Segundo peritos, não pode tratar-se de uma datação; talvez um número de inventário, ou uma tentativa de criar uma falsa antiguidade.

Não deve tratar-se da Virgem da Capela do Rosairinho da Moita, pouco afectada pelo terramoto de 1755, e que conserva uma imagem antiga de Nossa Senhora do Rosário.

A sua datação exclui também em absoluto que seja a representação de Nossa Senhora do Rosário que existiu na igreja matriz de Santa Cruz do Barreiro, e que a visitação de 1524 já descreve como imagem de vulto.

Numa primeira abordagem, poderia admitir-se que a imagem tivesse pertencido à Igreja de S. Domingos de Lisboa. Nunca a mais antiga, considerada milagrosa, mas que era de prata e que João Bautista de Castro afirma ter sido destruída pelo terramoto de 1755, que arruinou e incendiou quase totalmente o edifício e o enorme Convento anexo, como já referimos.

Julgamos mais provável ser a imagem pequena, que a Real Irmandade mandou fazer em 1791, cópia reduzida da imagem do altar-mor da igreja do Rosário do Barreiro, para substituir a Senhora cedida à Rainha D. Maria, e que teria sido uma representação também pequena, mais provavelmente a que era utilizada nos Círios.

É da tradição local que foi a Virgem pequena que andou por fora, não havendo notícia que a imagem do altar-mor tivesse saído do seu lugar, excepto nas procissões.

Também é bem recordada a grande devoção que existia à imagem pequena, que pouco tempo ficava no Barreiro.

Felizmente, encontra-se de novo exposta na igreja, num nicho à direita da capela-mor, onde pode ser examinada pelos visitantes e devotos. Esta imagem talvez deva ser objecto de peritagem mais aprofundada, para avaliar a necessidade de um restauro cuidadoso, que a pode melhorar substancialmente, incidindo sobretudo na pintura.

As oferendas e o arquivo

As numerosas ofertas feitas à Virgem também se conservam na sua maioria, deles se destacando várias jóias de valor, algumas delas ofertas régias, que estão guardadas num Banco.

Primorosos vestidos da imagem grande da Padroeira, de igual origem, também se conservam. O vestido de D. Maria I mantém-se em uso, como traje de gala da imagem grande da Senhora, que sai nas procissões. O rosário grande, de contas de ouro, usado na mesma imagem, talvez seja o original.

Existem numerosos livros de actas, contas, registos de Escravos da Irmandade, vasos da Fábrica do Rato, alfaias, missais, antifonários, etc., alguns com esplendorosas encadernações. Guardam-se alguns paramentos de qualidade, sendo notável um deles, bordado a ouro.

De destaque, ainda o fabuloso órgão do século XVIII, a necessitar de ser restaurado. Mas é preciso antes que o trânsito que circula em frente da Igreja possa ser desviado, para não o prejudicar com a vibração dos veículos pesados. Este projecto já teve o acordo do Município. Conta-se com a Fundação Calouste Gulbenkian para o restauro desse espectacular instrumento.

A imagem do Senhor Jesus dos Navegantes, de grande tradição no Barreiro, em especial entre a gente ligada ao mar, conserva-se actualmente na Igreja de Santa Maria, onde foi colocada desde a sua inauguração.

Esta imagem de Cristo esteve originalmente na extinta Igreja de S. Francisco durante curto período, mas passou por vontade da família dos doadores para a Igreja do Rosário, de onde só saiu recentemente. E para onde seria lógico que regresse, quer em cumprimento dessa vontade, quer por este templo ter estado sempre ligado a actividade marítima, para cuja gente o Senhor Jesus dos Navegantes tem alto significado.

Há também notícia da pequena imagem de Nossa Senhora do Rosário que era usada para o peditório do Círio. Esta imagem ainda existe e conserva-se numa casa particular da nossa Cidade. Espera-se que possa regressar um dia à casa-mãe.

O templo possuí interessantes paramentos antigos e alfaias, entre as quais o relicário antigo do Santo Lenho, que se encontra ao culto.

Existe ainda variada iconografia referente a Nossa Senhora do Rosário do Barreiro – registos, gravuras, editais, diplomas, etc., de grande interesse documental.

Da Carta de Escravidão…, que era entregue aos novos irmãos, conhecem-se duas edições, a de 1785 e de 1859, correspondendo a períodos de grande actividade da Confraria. Têm conteúdos substancialmente diferentes, pois na 2ª edição foram sensatamente eliminados alguns dos milagres que hoje em dia teríamos dificuldade em aceitar como tal, dada a sua evidente ligação a situações psicológicas complexas. Não deixa de ser interessante verificar este fenómeno de auto-censura, em que o bom senso saiu vencedor.

Uma raríssima obra, o Mestre da Vida, que ensina a viver e morrer santamente, novamente correcto por um Religioso da Ordem dos Pregadores, e offerecido á Virgem Santissima do Rosario por mãos da sua Prodigiosa Imagem, que se venera na Villa do Barreiro, impressa na Régia Officina Typografica de Lisboa em 1799, permite-nos recuperar alguma liturgia antiga do Santuário, além de oferecer ainda notas sobre a vida religiosa da época. Deve ter sido obra muito divulgada, pois até Eça de Queiroz a cita como um dos livros de muito uso devoto.

Várias peças musicais podem também ser estudadas, para reencontro do antigo fundo musical litúrgico.

Das varas de tartaranha, que aqui existiram em grande número, resta apenas uma memória neste Santuário. Para aproveitar uma belíssima imagem de Cristo crucificado, provavelmente do século XVI, algo danificada, fixou-se esta a uma cruz feita com fragmentos desses paus, como descobrimos recentemente. Pode ver-se no altar-mor.

Os tempos recentes da Real Irmandade

Após 1910 e a implantação da República, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário foi a única, durante alguns anos, que se conservou aberta ao culto na vila do Barreiro, mas o Círio anual deixou de se realizar.

Em 1930 voltou a sair a procissão que percorria algumas ruas da zona ribeirinha, na qual se encontrava a maioria dos seus tradicionais devotos, sobretudo entre as gentes ligadas às fainas do mar.

Estas continuaram a fazer regularmente valiosas doações à Virgem do Rosário, mas teriam atribuido peculiar significado à oferenda votiva das longas varas de suspensão das redes, em cujas extremidades prendiam os cabos de arrasto das tartaranhas, tipo de rede usada, como apontámos, pelas muletas de pesca, e mais tarde pelos botes-muleta.

Também não se encontram referências a oferendas de varas noutros santuários. Ainda há bem poucos anos se encontravam em bom número nesta Igreja. Dada sua dimensão, que oscilava entre os 3 e os 4 metros, começou a ser difícil arrumá-las, pelo que se foram gradualmente eliminando.

Segundo nos disse um velho pescador do Barreiro, os paus de tartaranha eram oferecidos ao Santuário quando os barcos deixavam de trabalhar e eram postos em seco para morrer. Contornava-se assim a perda definitiva do barco, elemento fundamental da subsistência de tantas famílias, pois dele iria persistir uma memória no Santuário.

Em 1931 registaram-se alguns incidentes na procissão, por conta de activistas políticos locais, e de tom anti-clerical, mas que não se tornaram a repetir.

As disposições respeitantes aos irmãos foreiros continuaram a ser escrupulosamente cumpridas até 1953, não existindo Irmãos do Barreiro na Mesa da Irmandade. Nesse ano conseguiu-se finalmente que a sede da Irmandade passasse a ser no Barreiro, sendo então eleita a primeira Mesa com residentes locais.

Em 1957 a Irmandade obteve, após arrastadas diligências, e com o apoio do Padre Francisco Santos Costa, Pároco do Barreiro, o regresso definitivo ao Santuário da antiga imagem pequena de Nossa Senhora do Rosário, que se encontrava ao tempo na Capela do Desterro, em Lisboa.

Nos anos 50 a Festa do Rosário voltou à tradição local com regularidade, com arraial e celebrações religiosas, passando a ter patrocínio do Município alguns anos após o 25 de Abril, acabando a festividade por fixar-se a meio de Agosto, reocupando a tradicional data mariana que em 1791 se tinha escolhido.

Já em 1997 a actual Reitor, Padre Rodrigo Mendes, conseguiu recuperar os valiosos ex-votos da Irmandade, que desde os anos 70 se encontravam no Museu de Setúbal, e eram já quase considerados como património etnográfico distrital, o que tornou esse regresso trabalhoso e demorado.

Preparando o Futuro Museu

Está nos planos da irmandade e do seu Reitor, Padre Rodrigo Mendes, a instituição do Museu da Real Irmandade do Nossa Senhora do Rosário do Barreiro, cujas fases preliminares foram já em executadas.

Foi instalado dentro do Santuário, na antiga Sala da Mesa da Irmandade, um pequeno núcleo museológico, que já pode ser visitado.

Nele se pode já admirar parte do seu valioso património, e também os preciosos ex-votos, agora recuperados. Muita documentação, iconografia e objectos ligados ao culto, poderão ficar também patentes ao público.

Tem sido possível mobilizar várias boas vontades, e até o apoio do Museu Nacional de Arte Antiga, para a montagem da exposição permanente, graças às diligências desenvolvidas pelo Arquitecto Luís Cerqueira.

Algumas peças de valor terão também que passar mais tarde por processos de restauro.

Num Concelho tão rico em património cultural e material, mas tão carente de instalações museológicas, este Museu da Real Irmandade vai tornar-se decerto em mais um dos milagres de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro.

Resumo

A investigação sobre o passado histórico do Barreiro tem revelado inúmeros factos desconhecidos.

Um dos arquivos mais produtivos tem sido o vasto conjunto do Cartório da Ordem de Santiago, de que o Barreiro foi uma comenda importante.

O culto de Nossa Senhora do Rosário, considerado tradicionalmente como tendo vindo para o Barreiro em 1736, revelou-se, graças a estas investigações, muito mais antigo.

Já em 1524 existia uma imagem da Virgem do Rosário na Igreja Matriz do Barreiro, e em 1606 foi aqui legalizada uma Confraria do Rosário, cuja existência informal deve ser bastante anterior. Esta irmandade da Igreja Matriz iria subsistir por bastantes séculos, embora com pouca actividade no século XIX, em que seria extinta.

Em 1736 foi, de facto, sediada no Barreiro uma segunda confraria, A Real Irmandade dos Escravos de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro, que tomou conta da antiga Ermida de S. Pedro dos Pescadores, que por sua vez tinha sido de S. Roque, na praia do Barreiro.

Nos finais do século XVIII foi ampliada e transformada no actual Santuário de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro, que ainda hoje se mantém vivo e activo, bem como a Real Irmandade.

Esta segunda confraria, aqui estabelecida em 1736, parece ser a continuadora directa da Irmandade do Rosário do Convento de S. Domingos, em Lisboa, a mais antiga destas confrarias conhecida em todo o mundo.

Esta foi constituída no último quartel do século XV, pretendendo contribuir para uma maior evangelização dos escravos negros, que nessa altura começaram a ser introduzidos em grande quantidade em Portugal, como um dos corolários da expansão portuguesa no mundo.

Numerosas confrarias do Rosário se estabeleceram depois pelo país e nos territórios controlados pelos portugueses, com destaque para o Brasil.

A Real Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro gozou de larga protecção da Casa Real Portuguesa, e foi promotora, durante quase duzentos anos, de um concorrido Círio, que trazia a imagem da Virgem de Lisboa, em procissão fluvial. Durante alguns dias havia também festa religiosa e um con

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